1 de outubro de 2007

Rosangela Ap em “Arte na rede” - Revista Continente Multicultural, Ano VII, Nº 82, outubro del 2007, páginas 48-51

“Arte na rede
Nos sites Your Gallery e no Stuart qualquer artista de qualquer lugar do
mundo se cadastra, monta um perfil e inclui vídeos e fotos das suas obras
Daniel Buarque

Na Your Gallery e no Stuart, dois projetos-sites
parceiros promovidos pelo milionário
das artes Charles Saatchi, qualquer artista
de qualquer lugar do mundo entra no site,
que foi criado como extensão da galeria real de Saatchi,
cadastra-se, monta um perfi l e inclui vídeos e fotos das
suas obras.
Algumas das melhores idéias da humanidade parecem
absurdamente óbvias quando realizadas. Utilizar a
internet para democratizar o mundo e o mercado das
artes plásticas, por exemplo, seguindo o que aconteceu
com a música, o vídeo e a literatura. Como ninguém tinha
pensado nisso antes? Faz somente um ano que isso
começou a acontecer de forma
intensa, a partir da Inglaterra,
mas com abrangência internacional.
Sem assumir nenhum
interesse econômico e sem fazer
publicidade, a Your Gallery e o
Stuart, dois projetos-sites parceiros
promovidos pelo milionário
das artes Charles Saatchi, já têm
em média 40 milhões de cliques
por dia, volume de visitantes que
vem crescendo ininterruptamente
desde sua estréia. O sucesso é a
arte de descobrir o óbvio.
O funcionamento da Your
Gallery segue os exemplos anteriores
da música, com o MySpace,
ou dos vídeos, no YouTube. Qualquer
artista de qualquer lugar do
mundo entra no site, que foi criado
como extensão da galeria real
de Saatchi, fechada para reforma
e mudança de endereço no início de 2006, cadastra-se,
monta um perfi l e inclui vídeos e fotos das suas obras.
A partir daí ele está em contato com outros mais
de 20 mil artistas que já estão cadastrados, além de
curiosos, colecionadores e galeristas atraídos pela grife
Saatchi – publicitário nascido em Bagdá e criado na
Inglaterra, responsável, há 10 anos, pela mostra Sensation,
que mudou os rumos da arte britânica e lançou ao
mundo o trabalho de nomes como Damien Hirst. Uma
proposta que dá mais visibilidade que muita galeria
“real”, e tudo sem indicação, sem favor, sem infl uência,
totalmente democrático.
“Em termos da forma como as pessoas vêem e compram
arte, o site tem um aspecto revolucionário”, explica
Rebecca Wilson, editora da Your Gallery e do Stuart.
“É uma fantástica plataforma alternativa para encontrar
uma audiência para arte. O mundo das artes é muito segregado
e desigual. Há um enorme vazio entre os grandes
artistas e os grandes admiradores, que expõem e visitam
grandes museus e movimentam muito dinheiro, enquanto
uma outra grande quantidade de artistas menores não
consegue sequer expor seus trabalhos simplesmente por
falta de um contato certo ou de uma boa indicação. Essas
pessoas fi cam sem chances de lidar com vendedores
e marchands e a internet muda isso, pois permite que
qualquer pessoa exponha seus trabalhos para qualquer
pessoa do planeta”, resume, empolgada.
“O site é inteiramente gratuito”, ressalta Wilson. Além
de democratizar o acesso e a divulgação, a galeria virtual
funciona especialmente para novos artistas. Por isso o
projeto iniciado em maio de 2006 cresceu em novembro
do mesmo ano. Além da Your
Gallery, a instituição presidida
por Charles Saatchi criou o Stuart,
site semelhante voltado apenas
para estudantes de artes de
todo o planeta (o próprio nome
vem da junção das palavras estudante
e artes em inglês). É como
um orkut, um site de relacionamentos
especializado em artes.
“Tenho recebido informes de
outros artistas e muitos convites
para exposições. Fui convidada
até para a Bienal de Veneza.
Sem dúvida o site tem retorno”,
disse a estudante paulista Rosangela
Aparecida da Conceição,
que tem perfi l no Stuart desde o
início deste ano. Em sua página
pessoal dentro da rede de estudantes,
há imagens digitalizadas
de 16 obras suas, e ela está ligada
a outros cinco estudantes de diferentes lugares do mundo,
com quem pode trocar informações, experiências e
até mesmo inspirações.
Para os visitantes, é possível ver as obras de diferentes
artistas, buscando por nome, por cidade e país de
origem, ou mesmo ir navegando entre diferentes perfi s
interligados. Até o fi nal de junho deste ano, não havia
nenhuma resposta para a busca por artistas de Pernambuco,
Recife ou Olinda, mas já há várias dezenas de
brasileiros, a maior parte de São Paulo. Entre os já “profis-
sionais” da Your Gallery, em oposição aos estudantes
do Stuart, um empolgado representante brasileiro é o
artista radicado na Espanha, Davis Lisboa, que tem um
perfi l com obras digitalizadas, currículo e contato. “As
pessoas que fazem trabalhos artísticos têm uma grande
difi culdade de comunicação visual. Com a internet, há
um diretório com imagens em alta resolução que permitem
que se tenha contato com a obra apesar da dis-


















Obra da artista Rosângela Aparecida Da Conceição que tem perfil en Stuart (a esquerda)
Ao centro, a obra Hybrid-macunaíma, do artista Davis Lisboa, radicado en Espanha, que participa da Your Gallery
The physical Impossibility of Death in Mind of Someone Living, de Damien Hirst, que foi exposta na mostra Sensation, realizada por Charles Saatchi (a direita)

tância. As páginas do Saatchi concentram tudo, gerando
muitas oportunidades”, disse.
“É muito democratizador não apenas para os milhares
de artistas que não teriam como expor, mas também
para as pessoas que gostam de arte e podem se tornar
potenciais compradores, colecionadores, mas se sentem
inibidas num ambiente de uma galeria real. Na internet
não há isso. O colecionador pode entrar em contato diretamente
com o artista, conhecer seu trabalho, suas obras,
de forma próxima e amigável. Isso tudo sem ter que dar
uma comissão de 50% à galeria, o que facilita ainda mais”,
explicou a editora dos sites. E, se os artistas brasileiros
ainda não são muitos, o país é o quarto maior público
dos sites e um dos que mais crescem em número de visitantes.
“Vocês ficam atrás somente da Inglaterra, Estados
Unidos e Alemanha”, diz Wilson.
“Não tenho dúvida de que a internet é o futuro da
arte. Faz uma diferença abismal ter uma página na web.
Para mim, abriram-se muitas oportunidades. Chega a ser
assustador. Recebo tantos convites que não consigo responder
ao todos. São mais de 250 por ano, e não sou uma
fábrica de obras de arte”, conta, empolgado, Lisboa, que
entrou na Your Gallery há pouco tempo e que também
tem um site pessoal independente para a divulgação dos
seus trabalhos.
A força da vitrine virtual contrasta com a das galerias
reais. Enquanto o site recém-criado já tem mais de 3 milhões
de visitantes diários, o Louvre, em Paris, e a National
Gallery, de Londres, dois dos endereços mais importantes
do mundo das artes, têm, cada um, cerca de duas
dezenas de milhares de visitantes por dia. Financiados
pela instituição da Galeria de Saatchi, os dois projetos fazem
uma intermediação indireta entre artistas e compradores,
não participando das negociações e não cobrando
comissões, o que faz com que não haja sequer controle
sobre a quantidade de negócios já gerados pelo contato
de milhares de artistas com milhões de visitantes. “Não
temos controle sobre as vendas, mas temos muita informação
sobre colecionadores que entram para procurar
trabalhos novos. Há muitas galerias que estão montando
exposições basicamente com artistas encontrados na galeria
on-line”, disse Wilson.
A ausência de controle do site se expande à qualidade
das obras expostas. Como qualquer pessoa pode se dizer
artista, criar um perfil e expor virtualmente suas obras, é
de se imaginar que nem tudo o que se encontra lá tenha a
qualidade das obras que se encontram nas já citadas National
Gallery e no Louvre. “Não temos nenhum tipo de
censura, o que permite, sim, que haja trabalhos de menor
qualidade, mas isso é raro. As pessoas respeitam bastante

o ambiente e não fazem brincadeiras. Temos um espírito
democrático e igualitário, e estamos preparados para
uma mistura real, que inclua artistas muito talentosos,
mas também alguns trabalhos menos valiosos”, disse
Wilson.

Contraponto – Se tudo parece uma maravilha, expositores
e artistas se empolgam tanto, alguns críticos
ainda torcem o nariz para esta inovação. Para Teixeira
Coelho, professor titular da Escola de Comunicações e
Artes da USP e curador-chefe do Museu de Arte de São
Paulo (Masp), a internet nunca vai ter toda essa força
revolucionária. “Acho um pouco apressado dizer que a
internet é o futuro das artes plásticas. Uma pessoa só
compraria pela internet se já soubesse exatamente o que
quer comprar, se já conhecesse o artista”, disse.
Para ele, o fato de uma galeria ter um site é algo
como ela vender um catálogo de uma exposição, jamais
vai substituir o efeito da obra de arte original. “A internet
é uma muleta. As artes plásticas têm um caráter presencial
muito importante. Fotografias, internet, vídeo,
nada consegue reproduzir o efeito presencial da arte”,
disse. Nem mesmo o papel democratizador de um site
que divulga trabalhos novos é válido, segundo Coelho.
“Como ferramenta de divulgação pode funcionar da
mesma forma, como uma muleta. Eu não chamaria um
artista pelo que ele apresenta apenas pela internet.”
“Alguns dos trabalhos são realmente terríveis”, descreveu
o crítico inglês Tom Lubbock, do jornal Independent,
que louva a iniciativa, mas se diz um tanto
suspeito em relação à capacidade real de a galeria virtual
suplantar as galerias reais. Segundo ele, a postura
do site vai se prender mais a trabalhos menores e mais
baratos, para enfeites domésticos, do que para a negociação
de obras de valor suficiente para os melhores
museus do mundo.
Críticas à parte, o império virtual de Charles Saatchi
não pára de crescer. Recentemente, enquanto completava
um ano do lançamento da Your Gallery, o grupo lançou
uma versão do site em mandarim, para atender ao
mercado chinês, um dos que mais crescem atualmente
nas artes plásticas, um “mercado explosivo”, segundo
Wilson. E ainda há planos para mais: um site em espanhol
e outro em russo. “Chegamos aonde estamos sem
nenhuma publicidade e queremos crescer ainda mais.
Vamos começar a criar exposições reais das obras que
são reunidas on-line. Vamos montar stands com algumas
obras, mas permitindo que se veja também o que
está na internet. Queremos estar presentes nas maiores
feiras de arte do mundo”, disse a editora.•”

conteúdo extraído da Revista Continente Multicultural

http://www.continentemulticultural.com.br/

Errata: Rosângela Ap foi convidada para a Bienal de Florença e não para a de Veneza como saiu nesta edição.

Nenhum comentário: